Como Calcular o CMV do Restaurante
CMV alto come o lucro sem você perceber. Aprenda a fórmula, um exemplo em reais, faixas por tipo de operação e como baixar o custo sem piorar o prato.
Por Equipe Peddiu · Especialistas em Gestão de Restaurantes
Financeiro12 min de leitura
Se você não sabe o CMV da casa, está dirigindo o restaurante no escuro. O caixa pode estar cheio no sábado e, no fim do mês, sobrar pouco. O faturamento mostra o que entrou. O CMV mostra o quanto já foi embora na cozinha.
CMV é a sigla de Custo de Mercadoria Vendida. Em restaurante, lanchonete e pizzaria, ele responde: de cada R$ 100 que o cliente pagou, quanto foi para carne, queijo, massa, embalagem e o restante dos insumos vendidos? Sem esse número, conversa sobre lucro, preço ou promoção vira achismo.
Neste guia você vai aprender a calcular o CMV do período, montar a conta com um exemplo em reais, comparar faixas típicas de pizzaria, hamburgueria e à la carte, evitar os erros que inflacionam o indicador e transformar o número em rotina semanal. No fim, confira o resultado com os números do seu PDV.
O que é CMV e por que ele importa
O CMV não é o total que você comprou no mês. É o custo dos insumos que de fato saíram na venda. Se você comprou R$ 8.000 de mercadoria, mas ainda tem R$ 2.500 no estoque, esses R$ 2.500 ainda não viraram custo da venda. Viram CMV só quando o produto é usado no prato, na pizza ou no combo que o cliente levou.
Isso importa porque o food service trabalha com margem apertada. Uma pizzaria que fatura R$ 80.000 no mês e opera com CMV de 28% gasta R$ 22.400 em mercadoria. Se o CMV sobe para 35% sem o dono perceber, o custo vira R$ 28.000. São R$ 5.600 a menos no resultado, sem nenhum cliente a menos na porta.
O CMV também é o elo entre cozinha e financeiro. Preço mal calculado, porção sem padrão, desperdício e promoção sem conta aparecem primeiro aqui. Quem acompanha só o faturamento demora meses para ver o vazamento.
A fórmula do CMV em reais e em percentual
Existem duas formas úteis de olhar o mesmo indicador.
CMV em reais mostra o custo absoluto do período.
CMV (R$) = Estoque inicial + Compras do período - Estoque final
CMV em percentual mostra o peso desse custo sobre a receita de vendas do mesmo período.
CMV (%) = (CMV em reais / Receita de vendas) x 100
A receita deve ser a de comida e bebida vendidas, no mesmo recorte de tempo da contagem de estoque. Não misture mês de compra com quinzena de venda. O erro mais comum é dividir compras da semana pelo faturamento do mês e achar que o CMV está ótimo.
Exemplo completo de uma lanchonete
Imagine uma hamburgueria de bairro no mês de março.
Estoque inicial em 1º de março: R$ 4.200 (pães, carnes, queijos, molhos, batata, embalagem e refrigerantes).
Compras do mês: R$ 18.600 em notas de fornecedor.
Estoque final em 31 de março: R$ 3.800.
Faturamento de vendas no mês: R$ 52.000.
CMV em reais = 4.200 + 18.600 - 3.800 = R$ 19.000.
CMV (%) = (19.000 / 52.000) x 100 = 36,5%.
Trinta e seis e meio por cento em hambúrguer artesanal já pede atenção. Em muitas hamburguerias o alvo fica entre 28% e 34%. Esse 36,5% é um recado: ou o preço está baixo, ou a porção está grande, ou está saindo produto sem venda registrada.
Se a mesma casa reduzir o CMV para 32% sem perder venda, o custo cai para R$ 16.640. A diferença é R$ 2.360 no mês, mais de R$ 28.000 no ano, só de alinhar custo e receita.
Como calcular na prática, passo a passo
Passo 1: escolha o período e trave a data
Calcule sempre em ciclo fechado: semana, quinzena ou mês. Para quem está começando, a semana é melhor. O número fica mais perto da operação e você corrige rápido. Marque o horário da contagem, por exemplo segunda às 8h, antes de abrir. Contar no meio do almoço distorce estoque e venda.
Passo 2: conte o estoque inicial
Liste os itens que entram no prato e na embalagem do delivery. Carne, queijo, pão, molho, óleo, descartáveis, refrigerante e cerveja. Não precisa inventariar o detergente da limpeza neste cálculo: material de limpeza é despesa operacional, não CMV de alimento.
Use preço de custo recente, não preço de venda. Se o queijo mudou de R$ 28 para R$ 34 o quilo, o estoque precisa refletir o custo atual. Estoque a preço velho deixa o CMV artificialmente baixo.
Passo 3: some todas as compras do período
Notas fiscais, compras no atacado, feira e aquele pagamento no Pix para o fornecedor de hortifruti. Se não entra na planilha, infla o lucro no papel e some no caixa. Separe compra de equipamento. Fogão novo não é CMV.
Passo 4: conte o estoque final no mesmo critério
Mesma lista, mesmo horário, mesmo critério de preço. Se no início você contou o óleo aberto, conte de novo no fim. Inconsistência de critério é uma das razões pelas quais o CMV “pula” de um mês para o outro sem explicação.
Passo 5: feche a receita do mesmo período
Some só o que foi venda de produto. Cancele pedidos cancelados, remova gorjeta se você lança gorjeta à parte e não misture empréstimo do sócio com faturamento. O denominador errado estraga a porcentagem mesmo com o numerador certo.
Passo 6: calcule, compare e investigue
Ache o percentual e compare com a semana anterior e com a faixa da sua operação. Variação de 1 ponto pode ser ruído. Salto de 4 ou 5 pontos em sete dias quase sempre tem causa: promoção, desperdício, quebra, furto, erro de lançamento ou alta de insumo.
CMV do período versus custo da ficha técnica
Muita gente confunde as duas contas. A ficha técnica diz quanto deveria custar um prato se a receita for seguida à risca. O CMV do período diz quanto de fato saiu do estoque em relação ao que foi vendido.
Se a ficha da pizza calabresa aponta custo de R$ 9,80 e você vende a R$ 42, o CMV teórico daquele item é 23,3%. Se o CMV geral da pizzaria fecha em 34%, a diferença está no mundo real: queijo a mais, borda recheada sem cobrar, pizza queimada, cortesia, porção fora do padrão ou item vendido sem baixa.
Os dois números precisam conversar. A ficha guia o preço. O CMV do período audita a operação. Sem ficha, o preço é feeling. Sem CMV de período, a ficha é teoria.
Faixas de referência no food service
Não existe um CMV universal. O número saudável depende do mix, do ticket e do quanto você gasta com mão de obra e aluguel. Ainda assim, faixas ajudam a saber se você está fora do jogo.
Pizzaria
Pizzarias de massa própria e queijo em volume costumam trabalhar com CMV entre 22% e 30%. Massa e molho são baratos em relação ao preço. O vilão é o queijo e o recheio premium. Rodízio sem controle de reposição é clássico para estourar 35%.
Hamburgueria e lanchonete
Hambúrguer artesanal com blend, queijo bom e batata costuma ficar entre 28% e 35%. O risco é o combo “completo” a preço popular: o sanduíche paga a conta, o acompanhamento come a margem.
À la carte e restaurante de prato feito
Cozinha com proteína no centro do prato, buffet ou PF frequentemente opera entre 30% e 38%. Um CMV de 32% pode ser saudável se a mão de obra for enxuta e o ticket for alto. O problema é CMV de 38% somado a folha alta e aluguel caro.
Use as faixas como farol, não como lei. Um CMV de 30% com desperdício zero vale mais do que 24% no papel e estoque sumindo.
Erros que distorcem o CMV
Contar compra como se fosse custo
Comprar R$ 10.000 de carne na promoção não significa CMV de R$ 10.000 naquela semana. Se a carne ainda está no freezer, o custo ainda não aconteceu. Quem olha só a fatura do fornecedor toma decisão errada de preço no meio do mês.
Esquecer embalagem, gás e descartável do delivery
Sacola, marmita, talher, papel e, em alguns controles, o gás de cozinha. Em delivery pesado, embalagem pode representar 2 a 4 pontos percentuais. Uma casa que “está com CMV de 28%” às vezes está com 32% quando inclui o pacote.
Porção sem padrão
O cozinheiro coloca 180 g de carne no prato que a ficha prevê 140 g. Em 200 pratos, são 8 kg a mais. A R$ 42 o quilo, são R$ 336 na semana, R$ 1.344 no mês, só naquele item. O cliente nem percebe o extra. O CMV percebe.
Venda sem lançamento e períodos misturados
Pedido no WhatsApp, fiado e cortesia sem registro: o estoque sai, a receita não entra, o CMV explode. Outro clássico é misturar datas: estoque no dia 3, compras até o dia 30 e faturamento do dia 1 ao 31. A conta fecha “quase”. Quase não serve para gerir.
Como baixar o CMV sem piorar o prato
Reduzir CMV não é necessariamente tirar queijo da pizza. As alavancas mais saudáveis são padrão, compra e mix.
Padronize a ficha técnica e treine a linha. Balança na montagem, concha padrão de molho e porção de queijo pré-pesada mudam o número em semanas. Negocie os itens que pesam no custo e planeje compra: cruzar o que mais vende com o que está parado evita ruptura e validade vencida. O controle de estoque é irmão do CMV: veja o guia de como controlar o estoque do restaurante.
Ajuste o mix. Item de CMV 45% que vende pouco não precisa ficar no cardápio só porque “sempre teve”. Item de CMV 22% no combo puxa a média para baixo. Revise preço quando o insumo sobe de verdade. Corte desperdício visível: aparas, produção antecipada demais e sobra de mise en place. Desperdício não aparece como linha no caixa. Aparece como CMV alto.
Como usar o CMV na operação da semana
Defina um dono do número. Sem dono, a contagem não acontece. Toda segunda, feche a semana anterior: estoque, compras, faturamento e CMV em reais e em percentual. Anote em uma linha. Três meses de série valem mais do que uma planilha perfeita abandonada.
Quando o CMV subir, pergunte nesta ordem: o preço de compra mudou, a porção mudou, houve promoção, houve quebra, houve venda sem lançamento? Use o CMV junto da margem de lucro do restaurante. CMV baixo com despesa alta ainda pode dar prejuízo.
Dúvidas que todo dono levanta
“Minha cozinha é pequena, preciso mesmo contar estoque?”
Sim, principalmente se é pequena. Em operação enxuta, R$ 800 de desperdício ou de porção extra pesam mais, não menos. A contagem pode ser só dos itens que representam 70% do custo: proteína, queijo, pão, massa e refrigerante.
“Posso usar só a ficha técnica e esquecer o CMV do mês?”
Não. A ficha diz o que deveria acontecer. O mês diz o que aconteceu. As duas contas juntas mostram se a receita está no preço certo e se a equipe está seguindo a receita.
“Delivery tem CMV diferente do salão?”
O alimento pode ser o mesmo, mas a embalagem muda o custo. Se o delivery já passa de 40% do faturamento, some o custo de embalagem nesse canal. Senão você subsidia aplicativo e marmita com a margem do salão.
Conclusão
Calcular o CMV do restaurante é somar estoque inicial com compras, subtrair o estoque final e dividir pela receita do mesmo período. O número em reais mostra o tamanho do custo. O percentual mostra se o cardápio, a porção e o preço estão alinhados.
Faça a conta toda semana, compare com a faixa da sua operação e investigue variação grande. Padronize ficha, feche venda no sistema e trate embalagem e desperdício como custo de verdade. Com isso, o CMV deixa de ser um susto no fim do mês e vira volante da casa.
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